Saudações é com entusiasmo que informo que Jéssica Lima é a única são-tomense na corrida ao Prémio Novos Autores do Kugoma 2026
Actriz, guionista e realizadora, Jéssica Lima é a única representante de São Tomé e Príncipe seleccionada para a corrida ao Prémio Novos Autores do Kugoma 2026. Actualmente residente em Londres, a cineasta são-tomense participa no FilmLab Moçambique com um projecto de ficção e chega à competição depois de um percurso construído entre São Tomé, Reino Unido, Angola e outros espaços de criação cinematográfica.
Jéssica Lima é a única representante de São Tomé e Príncipe na corrida ao Prémio Novos Autores do Kugoma 2026.
A distinção coloca a actriz, guionista e realizadora são-tomense entre os novos nomes do cinema presentes no FilmLab Moçambique, onde participa com o projecto de ficção One Course Meal, também identificado pelo título Nxkababu.
A candidatura ao prémio surge num momento particularmente importante do percurso da realizadora, que tem vindo a construir uma carreira entre diferentes geografias e linguagens artísticas.
Nascida em Lisboa, filha de pais são-tomenses, Jéssica cresceu em São Tomé e Príncipe. Foi ali que começou a perceber que o seu interesse pelas artes a colocava num lugar diferente.
“Sempre me senti um pouco fora do lugar por gostar de artes”, recorda.
O cinema entrou cedo na sua vida. Os filmes de Charlie Chaplin foram a primeira grande referência. Ao vê-los, ainda criança, pensou: “É isso que quero fazer quando crescer”.
Mais tarde, as novelas brasileiras continuaram a alimentar o interesse pelas histórias, pelas personagens e pela representação. O sonho ganhou maior consistência durante os anos de formação e acabaria por levá-la até ao Reino Unido.
Jéssica formou-se em teatro e cinema na East 15 Acting School, construindo posteriormente um percurso que atravessa o teatro, a representação, a escrita e a realização.
Entre os seus trabalhos está a interpretação da personagem Sra. Soames, em Our Town, de Thornton Wilder, e a curta-metragem Meninas Negras São Mulheres Também, projecto no qual acumulou as funções de actriz, guionista e realizadora.
Mas foi com Chama-me Maria, realizado em 2022, que a cineasta levou uma questão social particularmente sensível para o centro do seu trabalho.
O documentário acompanha a história de Maria de Lurdes, uma mulher vítima do próprio marido, e aborda o problema da violência contra as mulheres e do feminicídio em São Tomé e Príncipe.
“Infelizmente, é um filme que fala de uma problemática que é a violência contra a mulher”, explicou Jéssica, que dedicou a obra “a todas as Marias, todas as mulheres vítimas dos seus companheiros”.
O filme foi distinguido com o prémio de Melhor Curta-Metragem no São Tomé Fest Film e recebeu uma Menção Especial no Porto Femme International Film Festival.
Antes da realização do documentário, Jéssica tinha participado, em 2021, no São Tomé Film Lab, uma residência artística para realizadores onde começou a desenvolver o projecto que viria a transformar-se no seu primeiro documentário.
Mais recentemente, foi seleccionada para a 5.ª edição do Ateliê Mutamba, em Luanda, Angola, uma residência artística financiada pela Fundação Calouste Gulbenkian. Aí desenvolveu um projecto documental centrado na memória, na herança familiar e na identidade.
Actualmente a viver em Londres, chega ao FilmLab Moçambique com One Course Meal, uma história sobre relacionamentos contemporâneos que procura colocar no centro narrativas de mulheres negras queer, fora dos contextos habitualmente associados ao trauma.A presença da realizadora no laboratório foi também resultado de uma mobilização que ultrapassou as fronteiras do cinema. Agora, esse percurso ganha uma nova dimensão com a selecção para a corrida ao Prémio Novos Autores do Kugoma 2026.
Da criança que se sentia “fora do lugar” por gostar de artes à realizadora que hoje representa São Tomé e Príncipe numa competição dedicada a novos talentos, Jéssica Lima construiu um caminho marcado pela persistência.“O mundo seria um pouco chato se fôssemos todos iguais”, diz.
Além de Jéssica concorrem mais dois realizadores. Trata-se de Grace Ribeiro, cabo-verdiana cujo trabalho audiovisual explora a relação entre território, memória e paisagem, e Denilson Nzala estão igualmente na corrida.
O júri da categoria PALOP é composto por Emília Wojciechowska (Cabo Verde), Gabi Ueno e António Maxlhaieie, director de produção do Kugoma. Na componente moçambicana, o júri reúne Natércia Chicane, Xavier Bila e Omar Faquirá.
A Gala de Premiação inclui ainda a entrega dos Prémios Maxfilm Creative, que distinguem categorias técnicas como melhor realizador, melhor actor, melhor actriz, melhor fotografia e melhor director de caracterização. A entrada é gratuita.O Kugoma 2026, que integrou pela primeira vez actividades do FilmLab Moçambique, decorreu até hoje no CCFM, Museu Mafalala, Chapa 100 e Netkanema, com entrada gratuita para todas as sessões.