“É tempo de transformar estratégia em projetos”, disse António Calçada de Sá, Presidente da Direção do Conselho da Diáspora Portuguesa
- Presidentes de Portugal e de Moçambique estiveram presentes na 9ª edição do EurAfrican Forum e defenderam uma cooperação baseada no investimento, no desenvolvimento do capital humano e na criação de valor em África;
- Paulo Rangel, Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, destaca a complementaridade estratégica entre Europa e África e afirma que o crescimento demográfico do continente e da lusofonia reforça o papel da CPLP e da língua portuguesa no contexto global;
- Conselho da Diáspora Portuguesa anuncia elaboração de um White Paper e desafia os participantes a identificar projetos concretos para reforçar a parceria entre Europa e África.
Lisboa, 17 de julho de 2026 – A 9ª edição do EurAfrican Forum (EAF2026) promovida pelo Conselho da Diáspora Portuguesa e realizada na Nova SBE, em Carcavelos, terminou com uma mensagem clara: “A relação entre a Europa e África deve entrar numa nova fase, centrada na execução de projetos concretos, na criação de valor local e no reforço de uma parceria estratégica entre os dois continentes”. Durante dois dias, líderes políticos, empresariais, académicos e institucionais debateram temas como geopolítica, comércio e investimento, energia, infraestruturas, capital humano e inovação e tecnologia, sob o tema “Africa Rising: Prosperity Through Global Cooperation”. O evento contou com a presença de mais de 700 pessoas, nos dois dias.
No discurso de encerramento, António Calçada de Sá, Presidente da Direção do Conselho da Diáspora Portuguesa, deixou um desafio aos participantes: passar das ideias à concretização. “Somos fantásticos em estratégia e em diagnóstico, mas temos de ser melhores na execução“. O responsável defendeu uma nova visão para a cooperação euroafricana, assente na criação de riqueza em África, no investimento conjunto e na valorização do talento local. “As fábricas têm de ser feitas em África. O desenvolvimento tem de ser feito em África. A prosperidade tem de existir em África”.
Ao longo da sessão de encerramento do evento, António Calçada de Sá destacou ainda a importância da educação e da formação profissional como pilares do desenvolvimento, defendendo uma aposta na transferência de conhecimento, na construção de escolas e hospitais e na capacitação de recursos humanos. Sublinhou igualmente que Portugal dispõe de empresas, conhecimento e experiência para liderar grandes projetos em áreas como energia e infraestruturas, apelando a uma maior coordenação entre empresas e instituições públicas.
Como resultado concreto desta edição, anunciou ainda que o Conselho da Diáspora Portuguesa irá publicar, nos próximos meses, um White Paper com as principais conclusões e recomendações do Fórum, desafiando os líderes dos diferentes painéis a identificar projetos concretos que possam ser desenvolvidos entre Europa e África.
Paulo Rangel: África e Europa têm uma oportunidade geopolítica única
O Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, esteve no segundo dia do evento e defendeu que a ascensão de África representa uma das maiores transformações geopolíticas do século XXI, sublinhando que o continente será, até ao final do século, o mais populoso e, sobretudo, o mais jovem do mundo. Para o MNE português, esta realidade demográfica constitui um ativo estratégico decisivo para o futuro da cooperação entre Europa e África e terá igualmente um impacto profundo na afirmação internacional da língua portuguesa. Recordando que o português é atualmente a quinta língua mais falada no mundo, Paulo Rangel destacou que o número de falantes poderá ultrapassar os 500 milhões nas próximas décadas, impulsionado, sobretudo, pelo crescimento de países africanos como Angola e Moçambique.
Nesse contexto, apelou a uma aposta reforçada na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que assinala o seu 30.º aniversário, defendendo que África será o principal motor da sua projeção internacional. “O continente africano será sempre a plataforma de afirmação da CPLP“, afirmou, sublinhando a importância de investir na capacitação científica, tecnológica, cultural e educativa dos países africanos de língua oficial portuguesa.
Na segunda parte da sua intervenção, dedicada à geopolítica, Paulo Rangel defendeu que Europa e África vivem um momento singular para aprofundar a sua parceria estratégica. Ao contrário da relação de competição económica que caracteriza outras regiões do mundo, considerou existir uma forte complementaridade entre os dois continentes. O ministro introduziu ainda o conceito de “geopolítica do fuso horário”, argumentando que a proximidade geográfica e temporal entre Europa e África constitui uma vantagem competitiva frequentemente subestimada. Defendeu que esta proximidade facilita a integração económica, o investimento, a circulação de conhecimento e a cooperação empresarial. Concluiu que o futuro das relações euroafricanas dependerá da capacidade de ambos os continentes transformarem esta complementaridade em parcerias concretas, capazes de responder aos desafios globais e de promover prosperidade partilhada.
Conversa entre Presidentes marcou abertura do Fórum
Um dos principais momentos do primeiro dia do evento foi a Conversa entre Presidentes, que reuniu Sua Exa. o Presidente da República Portuguesa e Presidente Honorário do Conselho da Diáspora Portuguesa, António José Seguro, e Sua Exa. o Presidente da República de Moçambique, Daniel Chapo. Ao longo da conversa, os Chefes de Estado defenderam o reforço da cooperação entre Portugal, Moçambique, África e Europa, destacando a necessidade de construir relações baseadas na confiança, no investimento sustentável, na educação, na inovação e na criação de oportunidades para as novas gerações.
António José Seguro sublinhou que Portugal pretende continuar a assumir-se como uma ponte entre Europa e África, defendendo uma parceria baseada na confiança, no diálogo político e na cooperação económica.
Daniel Chapo reforçou que África deve ser encarada como um parceiro estratégico e não apenas como fornecedor de recursos, defendendo uma aposta na industrialização, na criação de emprego qualificado e na valorização do capital humano africano, em linha com os temas debatidos ao longo do Fórum.
Previamente a esta conversa, José Manuel Durão Barroso, Chairman do EurAfrican Forum, abriu o Fórum e destacou o seu papel como uma plataforma de diálogo e cooperação entre líderes dos dois continentes, defendendo que África assume hoje um papel cada vez mais determinante na economia e na geopolítica mundial.
Um Fórum orientado para resultados
Ao longo dos dois dias foram identificadas prioridades comuns para o futuro da parceria euroafricana:
- investir na formação, educação e desenvolvimento do talento;
- promover investimento que gere valor acrescentado em África;
- acelerar projetos nas áreas da energia, infraestruturas e inovação;
- reforçar a cooperação institucional entre governos, empresas e universidades;
- transformar recomendações em projetos concretos com impacto económico e social.
A concluir a nona edição do EurAfrican Forum, António Calçada de Sá deixou uma última mensagem aos participantes: “Não precisamos de continuar a identificar os problemas. Precisamos de identificar projetos e executá-los“.
O EurAfrican Forum regressará em 2027, dando continuidade ao trabalho desenvolvido pelo Conselho da Diáspora Portuguesa na promoção de uma cooperação mais forte, sustentável e orientada para resultados entre Europa e África.