
JORNAL TROPICAL
SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE, CORRUPÇÃO CHEGA ANTES DO PETRÓLEO
25-10-2007
- Contundente o
advogado norte-americano Joseph Bell, envolvido na elaboração da legislação
petrolífera são-tomense, afirma que "na África Ocidental, só o cheiro
a petróleo pode ser suficiente para gerar corrupção".
“Ouro negro» atrai potências para a África mas pouco faz pela democracia
Depois do "esquecimento" posterior à Guerra Fria, África está outra vez na "mira" das grandes potências, agora devido ao petróleo, cujos benefícios se vêem no PIB mas não na democracia e direitos humanos dos países que o produzem.
Para o Conselho de Relações
Exteriores, influente "think tank" norte-americano, Angola é um dos países
africanos onde se justifica um "fortalecimento de vínculos" da maior
potência mundial, tendo em vista "os interesses estratégicos dos Estados
Unidos na energia e segurança do Golfo da Guiné".
"Com poucas excepções, os países dos quais os Estados Unidos dependem para
os seus suprimentos de energia, ou estão em regiões politicamente instáveis
do mundo, ou estão mal classificados no que diz respeito aos direitos
humanos e à governação", afirma no seu mais recente relatório o Conselho, de
que fazem parte "pesos pesados" da política e diplomacia norte-americanas,
como Chester Crocker, Paul Hare ou Frank Wisner.
Para os Estados Unidos, o
volume das importações de petróleo africano já supera as do Médio Oriente; o
Golfo da Guiné, em particular, já é mais importante enquanto fonte do que a
Arábia Saudita e o Kuwait juntos, segundo demonstra o investigador Nicholas
Shaxson no seu recente livro "Poisoned Wells" (Poços Envenenados), e é
também no petróleo africano que a China parece mais interessada.
Fruto das intensas relações promovidas por Pequim nos últimos anos, no ano
passado Angola conseguiu a proeza de tornar-se no principal fornecedor de
petróleo à China, ultrapassando a Arábia Saudita, maior produtor mundial.
"Lança" da aposta chinesa são
os empréstimos do banco público de promoção de comércio internacional (Eximbank),
garantidos por barris de petróleo, cujo montante já supera os quatro mil
milhões de dólares.
A transparência destas operações tem vindo a ser questionada, nomeadamente
pelo citado "think tank norte-americano", mas a generalidade dos
observadores considera que, nomeadamente para Angola, é uma oportunidade
para superar défices crónicos ao nível das infra-estruturas (estradas,
portos, caminhos-de-ferro), e assim levar o desenvolvimento a novos sectores
da Economia e a regiões depauperadas.
Com o gigante asiático a entrar na corrida, munido do seu inabalável
"pragmatismo" - que deixa de lado das relações com os regimes africanos
questões "incómodas" como direitos humanos - muitos investigadores e
organizações não governamentais questionam se também os Estados Unidos farão
cedências neste campo.
Para os membros do Conselho de Relações Exteriores, "Angola é um dos países que representam um dilema constrangedor para os Estados Unidos".
Isto porque a tradição norte-americana é de "promoção da governação e dos valores democráticos, com a crença de que os estados democráticos são os melhores parceiros", e o regime de Eduardo dos Santos está longe de responder a estes anseios.
Mais a norte, e no coração do Golfo da Guiné, está São Tomé e Príncipe, que, apesar de apenas estar previsto para 2012 o início da produção de petróleo, está já a ser encarado como novo "balão de ensaio", para ultrapassar os "traumas" da Nigéria e Guiné Equatorial, onde as receitas petrolíferas não contribuíram para desenvolver e aumentar a transparência.
O risco, afirma o investigador
luso-austíaco Gerhard Seibert, é que a potência que mais se tem interessado
pela situação, os Estados Unidos, opte por uma "não influência" em questões
de democracia e direitos humanos no arquipélago, quedando-se "satisfeito
enquanto houver umas eleições", e apenas isso.
O petróleo "é uma oportunidade para os doadores, sobretudo os
Estados Unidos, introduzirem a transparência em São Tomé. A Guiné Equatorial
é o exemplo a não seguir, em que a prioridade não foi a democracia, mas o
fornecimento de crude", disse à Lusa o investigador do Instituto de
Investigação Científica e Tropical.
O pequeno arquipélago, defende,
apresenta vantagens em relação aos casos anteriores - ser uma "sociedade
crioula", sem tradição de violência, e o longo período de transição até que
o petróleo entre em produção e comece a gerar receitas, que permite
"aprender, discutir e estabelecer regras".
Muitos norte-americanos ter-se-ão interrogado sobre onde - ou "o
que" - seria São Tomé e Príncipe, quando, em Maio deste ano, a procuradoria
processou um congressista democrata do Louisiana chamado William Jefferson,
por ter exigido um suborno a uma empresa que lhe pediu ajuda num litígio
relacionado com o petróleo são-tomense.
A empresa em causa, ERHC Energy, tem como único activo grandes participações no petróleo do arquipélago (adquiridas na década de 1990, muito antes de quaisquer outras) e o seu presidente, o nigeriano Emeka Offor - um importante aliado político do ex-presidente Olusegun Obasanjo - está também a ser investigado.
O caso foi amplamente
noticiado nos Estados Unidos, e São Tomé passou a ser conhecido como
bandeira para investigadores e activistas dos direitos humanos, na espécie
de "campo de batalha" em que esgrimem influências contra o "pragmatismo" do
capital associado à produção petrolífera.
Um dos nomes sonantes da "campanha", o economista da Universidade de
Columbia, Jeffrey Sachs, tem-se deslocado com frequência a São Tomé,
para contactos com as autoridades.
João Soares
"CRISE DOS "NINJAS" ABALOU A TRANQUILIDADE SANTOMENSE
12-10-2007
- Depois de uma solução que parecia ter sido encontrada com base num
pré-acordo, o porta-voz dos revoltosos diz agora que nenhuma delegação vai a
Luanda, alegando que o governo santomense é quem deve resolver o problema de
subsídio alegadamente atribuído pelo governo de Angola.
Uma decisão tomada esta quinta-feira pela comissão dos policias de intervenção rápida, quando nas últimas 24 horas parecia ter-se vislumbrado uma saída para esta crise instalada no Comando Geral da Polícia de S. Tomé e Príncipe na sequência de mais uma investida dos chamados Ninjas, que reivindicam subsídios que teriam sido pagos por Angola ao governod e S. Tomé.
Kaiser Júnior, sub-chefe do grupo que confirmou o cancelamento da viagem, disse que a mudança de estratégia se deveu ao facto de estarem perante um assunto nacional e, por isso, “ as diligências devem ser feitas pelo governo nacional e não pelo governo angolano” frisou o líder dos revoltosos.
Sob controlo
Uma vez mais, o porta-voz dos 98 polícias de intervenção rápida confirmou que os comandos central e distritais incluindo o paiol de armamentos continuam sob o controlo dos Ninjas, até que a questão seja resolvida.
Entretanto, “ os agentes têm estado a prestar alguns serviços mínimos, nos casos de extrema gravidade” assegurou Kaiser Júnior.
Apurou a BBC que os amotinados exigem agora do governo de Tomé Vera Cruz aumentos dos subsídios de riscos de vida corridos durante a formação em Angola e que os novos valores apresentados estiveram no centro de uma reunião esta quinta-feira entre o ministro da defesa e o comandante-geral da polícia.
Numa reacção à crise dos Ninjas, o maior partido de oposição santomense, o MLSTP-PSD, responsabilizou o governo da coligação MDFM/PCD por tudo quanto está a acontecer desde a passada segunda-feira, dia em que pela segunda vez o Comando Geral da Policia de S.Tomé e Príncipe é alvo de tumultos.
Recorde-se que a viagem a Angola destinava-se a esclarecer se o dinheiro teria sido ou não entregue a S. Tomé, uma vez que o governo de vera Cruz nega qualquer tipo de transacção do género.
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