15-09-2009 - Setembro 2009 (PlusNews) - Um surto de diarreia está a atingir quatro distritos de São Tomé desde o início de Agosto. No dia 31 o governo declarou epidemia no país, após uma reunião de emergência. Nenhuma morte foi registada até agora.
Na pediatria do hospital Ayres de Menezes, médicos e enfermeiros recebem de 20 a 40 casos de diarreia e vómito por dia: “Temos crianças internadas com outras doenças e se não houver atenção, estas crianças podem apanhar a diarreia e vómito”, disse a enfermeira Marta Roedo.
Foi o que já aconteceu com as gémeas Heline e Márcia. Elas terminaram o tratamento de paludismo, mas foram contaminadas pelo surto de diarreia no hospital. A mãe, Edjangela Rodrigues, reclama: “No meu ponto de vista, o hospital deveria criar um espaço próprio, não misturar as pessoas”.
Desde que o hospital, que é o maior da ilha, recebeu os primeiros casos no dia 15 de Agosto, cerca de 500 crianças menores de cinco anos já foram atendidas com os mesmos sintomas.
Até agora as autoridades sanitárias não encomendaram análises para apurar a causa da doença.
Falta de saneamento básico
A transição da estação seca para a chuvosa é vista como a principal causa para este tipo de epidemia. As chuvas começaram a cair intensamente no norte e no centro-sul de São Tomé nas primeiras semanas de Agosto.
“Grande parte da nossa população se abastece de água do rio e das nascentes", explica a directora clínica do Hospital Ayres de Menezes, Feliciana da Almeida.
"Mesmo aquelas que provêem de chafarizes são ainda alvo de bactérias. Os sistemas de canalização de água estão danificados e as chuvas arrastam lama, fezes de animais e humanas para os leitos dos rios. É esta água que as nossas gentes bebem”, conclui, para esclarecer a origem do surto e os temores de cólera.
Os indicadores económicos, e sociais mostram que a qualidade de vida das populações e, em particular as mais vulneráveis (crianças, mulheres, e idosos), melhorou. Mas a pobreza ainda atinge mais da metade da população (53,8 por cento). Destes, 15 por cento vivem em
extrema pobreza.
Almeida, afastou a hipótese ventilada na capital de que manteiga, leite e carnes bovinas importados do Brasil pela STP Trading – uma empresa local - poderiam estar por trás da epidemia.
“Até ao momento, não temos nenhuma confirmação de que os produtos estão na origem da diarreia”, sublinhou.
Reunião de emergência
Segundo José Luís, director do hospital Ayres de Menezes, que participou da reunião no ministério da saúde que declarou a existência da epidemia, existem neste momento mais de mil casos da diarreia em São Tomé.
“É verdade que no hospital existem condições, mas não queremos congestionar, os nosso serviços e sobrecarregar os nossos quadros”, disse Luís.
Não é a primeira vez que o arquipélago de 156 mil habitantes enfrenta este problema e, de acordo com Elisabete Fernandes, directora do Programa Saúde Sexual Reprodutiva, este foi o ano que a doença foi registado com maior intensidade.
“Já mandamos elaborar mais de 10 desdobráveis com informações”, disse.
O desdobrável de três páginas, contem informações básicas sobre a diarreia, como preveni-la e como preparar o soro oral.
Até que fique pronto, o UNICEF disponibilizou uma carrinha com auto-falantes para que agentes de saúde saiam às ruas para sensibilizar a população, informou Luís Bonfim, coordenador do gabinete de Saúde do escritório do UNICEF em São Tomé.