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"A gravidez na adolescência tornou-se lentamente uma tragédia nacional"

15-08-2009 - Adolescentes engravidam, abandonam a escola e têm menos chances no mercado de trabalho.

O governo de São Tomé e Príncipe está a preparar-se para adoptar uma nova estratégia de redução da gravidez precoce e pretende iniciar no final do ano uma campanha de comunicação sobre sexualidade e saúde reprodutiva endereçada aos jovens, pais e profissionais de educação.

De acordo com o Programa de Saúde Sexual Reprodutiva, 12,1 por cento das jovens raparigas engravidam precocemente no país; uma conferência sobre o assunto, realizada em Julho passado, concluiu que a falta de informação é a principal causa.

O programa também regista que o maior número de jovens que engravidam é de raparigas que não atingiram a nona classe – ou seja, não completaram o primeiro ciclo do ensino secundário.

A campanha, se bem-sucedida, deve ajudar também a impedir novas infecções de HIV entre as adolescentes. Apesar de mais de uma em 10 raparigas ficar grávida ainda adolescente, a incidência verificada nos últimos cinco anos em São Tomé está abaixo da média africana.

Futuro incerto

Morena Brito* de 23 anos, vendedora de frutas no mercado Côco-Côco, no centro da cidade de São Tomé, engravidou e viu-se forçada a abandonar os estudos. Durante a gravidez, ela descobriu que a relação sexual sem protecção também a havia infectado com o HIV.

“Eu não deveria estar onde me encontro. Tenho colegas que completaram o décimo primeiro ano e conseguiram bolsas de estudo. A minha vida ficou sem norte”, frisou.

A seroprevalência nacional no arquipélago é de 1,5 por cento numa população de 150 mil habitantes.


“Procuro sempre ter uma dieta alimentar equilibrada; agora sou mais reservada, não saio muito à noite”, diz Brito. Enquanto espera pelo autocarro para voltar para casa, ela pensa no futuro e diz com lágrimas nos olhos que “a minha vida está entregue a Deus”.

De acordo com Lurdes Santos, directora executiva do Instituto da Mulher, Equidade e Igualdade do Género, Brito tem razões para o pessimismo: “Adolescentes sem nona classe, grávidas, não conseguem completar o ensino secundário. Terão maior dificuldade de encontrar um emprego assalariado e estão condenadas ao ciclo da pobreza”.

Fracassos passados

De acordo com um estudo do Programa de Saúde Sexual Reprodutiva, em 2008 foram detectados 638 casos de gravidez precoce no distrito de Água Grande, o mais populoso de São Tomé, com cerca 36 mil habitantes.

“A gravidez na adolescência tornou-se lentamente uma tragédia nacional”, admitiu o Presidente da República, Fradique de Menezes, durante o congresso em Julho. Ele disse esperar que os programas do governo coloquem em prática as deliberações do congresso para que em um ano, “o diagnóstico seja menos arrepiante e fiquemos todos com a nossa consciência tranquila”.

A educação sexual nas escolas foi o primeiro projecto implementado pelo governo para combater o problema. Classes de educação para a vida familiar direccionadas a adolescentes também foram adoptadas, mas de acordo com Hilarinho Carvalho, especialista em saúde reprodutiva, “estes projectos revelaram-se um fracasso. As mensagens não foram passadas. Temos agora que inverter a situação, e usar médias tradicionais e profissionais de forma a despertar a auto-estima das raparigas e rapazes para poderem valorizar a sua juventude”.

Vinte e quatro por cento da população do país, formado por pequenas ilhas próximas à costa do Gabão, têm idade entre 11 e 18 anos e os principais problemas de saúde destes jovens estão fundamentalmente ligados à pobreza e à falta de uma estrutura de apoio familiar.

*nome fictício

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