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MARIA DO CARMO SILVEIRA ENFATIZA O DIREITO DA
MULHER E A EQUIDADE DO GÉNERO
13-04-2007
Os casos de violência doméstica também existem
contra os homens, (…) mas a
verdade
é que a grande maioria de situações que prefigura casos de violência
doméstica é a exercida, sobre as mulheres, pelo seu marido ou companheiro e
cujas causas estão enraizadas em costumes e estereótipos culturais que
remetem a mulher para uma situação de cidadã de segunda,
disse a nossa interlocutora em entrevista conduzida por
Manuel Barreto.
Não posso, por isso, deixar
de referir que se trata de uma cruel realidade que ofende as mulheres na sua
dignidade humana, enquanto pessoas, e na sua condição de cidadãs num Estado
de Direito Democrático, estando, na sua origem, a persistência de flagrantes
desigualdades entre mulheres e homens, continua aquela individualidade
ex-Primeira Ministra da República Democrática de São Tomé e Príncipe, agora
Presidente do Fórum da Mulher Santomense, FMS.
Cabe
ao Estado, na defesa da unidade familiar, criar “mecanismos para coibir a
violência no âmbito das suas relações. Os casos de violência doméstica são
tratados de forma pouco sensível e discriminatória. Torna-se, por isso,
urgente a modificação da legislação em vigor para que se cumpra a
Constituição e se dê o adequado tratamento legal para essa questão e que
tenha em conta, não apenas o tratamento e punição destas situações, mas
igualmente a sua prevenção, são as palavras concludentes da nossa visada
nesta edição do Tropical e África 2000, para acompanhar na grande entrevista
a seguir.
Manuel Barreto (MB) - O que
significa Fórum Mulher?
Maria do Carmo Silveira (MCS) - O
Fórum da Mulher Santomense é uma federação de ONG/s nacionais que lidam com
a problemática da equidade do género e a promoção da mulher no nosso País.
Foi criado em 1996 na sequência das recomendações da Conferência de Beijing,
realizada em 1994 e tem por objectivo unir as mulheres santomenses em torno
da implementação das recomendações emanadas da referida conferência.
M B - Que objectivos prossegue?
MCS - O Fórum da Mulher Santomense,
FMS, tem por objectivo desenvolver acções que visem promover a equidade do
género no país, sendo que as suas acções são particularmente direccionadas
em prol da promoção e bem-estar da mulher. Propõe-se, por isso, constituir
um palco de reflexão, um instrumento de apoio e esclarecimento da sociedade
civil e um parceiro do Governo na busca de soluções aos enormes problemas
que afectam as mulheres.
M B - Que actividades preconiza
levar a cabo?
MCS - No âmbito das suas
atribuições, o FMS irá prosseguir com o seu papel de amadrinhar a favor das
mulheres junto às autoridades do País, promovendo quer acções de advocacia
quer ainda acções de sensibilização. Propõe-se igualmente promover reflexões
e seminários sobre temas que visam a mudança de mentalidades e atitudes para
o reforço da equidade do género na nossa sociedade.
M B - Em que País e Universidade a
Doutora é formada?
MCS - Sou detentora de um diploma de
“Master in Economics Sciences” da Universidade de DONTSK, na Ucrânia, ex -
República Socialista Soviética.
M B - Como vê a problemática do
género em São Tomé e Príncipe?
MCS - É inegável os progressos
alcançados nesta matéria de 1975 à esta parte. Porém, constitucionalmente
bem enquadrado, a problemática de género ainda não encontrou, no plano
prático, uma resposta satisfatória, ou seja, que o estabelecimento da
igualdade de género no campo legal não significou a eliminação de práticas
culturais discriminatórias, nem o desaparecimento da condição de
subalternidade feminina no nosso país. Gozando do mesmo estatuto na
sociedade, mantém-se a subalternização da mulher perante o homem que se
manifesta de forma abrupta e visível essencialmente no dia a dia da relação
conjugal.
Apesar das mulheres começarem a
assumir cada vez mais um papel bastante activo, tanto na vida política, como
económica e social, assumindo as mais diversas responsabilidades que ao
nível dos Órgãos de Soberania ou Partidários, quer ainda nas diferentes
estruturas intermédias do poder, a precariedade da condição humana da grande
maioria desse extracto social é feita de desemprego, descriminação,
constante violência física e psicológica, levando-nos a crer que estamos
perante uma cultura de feminização da pobreza. Por isso, existe ainda um
longo e difícil caminho a percorrer para que se alcance, de facto, a
equidade do género na nossa sociedade.
M B - Que opinião tem do Encontro de
Madrid?
MCS - Mais do que um espaço de troca
de experiências entre mulheres espanholas e africanas sobre a problemática
da equidade do género no mundo em geral e, em África em particular, esse
Encontro foi um espaço de reflexão sobre o papel que as mulheres líderes
podem jogar nos seus respectivos países na promoção feminina e no combate de
todo e qualquer estereótipo contra a mulher. Deste Encontro resultou uma
nova instituição, a Rede de Mulheres espanholas e africanas, que conta com a
solidariedade e o apoio do Governo Espanhol e visa consertar ideias e
promover acções concretas em prol da melhoria da equidade de género em
África.
M B - E da violência doméstica?
MCS - Trata-se de um fenómeno
pernicioso que afecta muitas famílias e está fortemente associado a
degradação de valores morais e éticos, ao excessivo consumo de bebidas
alcoólicas e tem corroído os já, de per si, débeis alicerces da nossa
violência familiar e social. Embora se tenha propalado bastante sobre os
casos de violência doméstica contra os homens, a verdade é que a grande
maioria de situações que prefigura casos de violência doméstica é a
exercida, sobre as mulheres, pelo seu marido ou companheiro e cujas causas
estão enraizadas em costumes e estereótipos culturais que remetem a mulher
para uma situação de cidadã de segunda. Não posso, por isso, deixar de
referir que se trata de uma cruel realidade que ofende as mulheres na sua
dignidade humana, enquanto pessoas, e na sua condição de cidadãs num Estado
de Direito Democrático, estando, na sua origem, a persistência de flagrantes
desigualdades entre mulheres e homens.
Combatê-lo não é fácil por tratar-se
de um problema especialmente complexo, com facetas que entram na intimidade
das famílias e das pessoas. A violência doméstica goza, infelizmente de um
longo período de graça proporcionado pela debilidade do nosso sistema
jurídico. Temos que reconhecer que o ordenamento jurídico actual não está a
cumprir a determinação constitucional, expressa e inequívoca, no sentido de
que cabe ao Estado, na defesa da unidade familiar, criar “mecanismos para
coibir a violência no âmbito das suas relações.
Os casos de violência doméstica são
tratados de forma pouco sensível e discriminatória. Torna-se, por isso,
urgente a modificação da legislação em vigor para que se cumpra a
Constituição e se dê o adequado tratamento legal para essa questão e que
tenha em conta, não apenas o tratamento e punição destas situações, mas
igualmente a sua prevenção. Estamos, contudo, conscientes que não basta
produzir leis. Mais do que isso, é preciso, por um lado, que haja vontade
política para que ela possa ser implementada. Por outro, o factor cultural
pesa enormemente na prevenção da violência doméstica, e a persistência das
desigualdades económicas e sociais entre homens e mulheres constitui um
risco enorme a esse processo de mudança de mentalidade.
Porém, a adequação do sistema legal
a este propósito vai certamente constituir uma etapa importante neste longo
e complicado processo de prevenção e combate desse flagelo no nosso País.
Manú Barreto |
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