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Portugueses e são-tomenses combatem excesso de cães vadios nas ruas de São Tomé

Recolhida das ruas, a cadela Daisy estava entre os inúmeros cães vadios que proliferam em São Tomé e Príncipe, um problema de saúde pública que a Associação Amigos dos Animais (AMA) procura combater através da esterilização dos animais.

Daisy era a cadela mais maltratada da matilha, sempre a última a comer. Chegou à AMA “toda enfezadinha”, recorda Mafalda Iria de Sousa, uma das responsáveis da organização.

Depois de esterilizada, a associação percebeu que não poderia devolver a cadela à rua e, por isso, entregou-a, em momentos distintos, a três famílias de acolhimento, mas Daisy acabou sempre por encontrar o caminho de regresso para as instalações da organização, em Praia Lagarto, perto do aeroporto são-tomense.

Hoje, é uma “excelente cadela de guarda”, mas também é ela que recebe os visitantes aos pulos e a pedir festas.

“É a nossa cabeça de cartaz. A Daisy adotou a AMA e a AMA adotou a Daisy”, brinca a veterinária portuguesa, há cinco anos em São Tomé e Príncipe.

Criada em 2018 por Helda Costa Neto, veterinária são-tomense, a associação tem intensificado a sua ação nos últimos dois anos, com o objetivo de “promover o conceito de uma só saúde, que não é muito conhecido (…) em São Tomé e Príncipe, de que o bem-estar animal está ligado ao bem-estar da Natureza e ao bem-estar humano”, explica Mafalda Iria de Sousa.

“Mas neste momento aquilo em que estamos focados, porque é um meio para atingir um fim, é controlar a superpopulação de cães na cidade de São Tomé e no país”, refere, adiantando que não existe sequer um cálculo aproximado da quantidade de cães vadios que existem nas ruas: “São muitos, muitos, muitos, muitos, muitos”, resume.

A imagem é recorrente nas ruas da capital: cães muito magros e com feridas visíveis circulam por toda a cidade a remexer no lixo à procura de comida. Às vezes aproximam-se das pessoas e raramente são agressivos.

“É oficialmente um problema de saúde pública. Estes animais têm parasitas internos e externos, têm zoonoses, como sarna e dirofilariose. Quanto mais cães tivermos na rua, mais possibilidades temos de transmitir doenças às pessoas. A única forma ética de contornar este problema foi efetivamente fazer esterilizações em massa destes animais errantes, para evitar que continuem a reproduzir-se ‘ad eternum’”, refere Mafalda.

A AMA assinou no verão um acordo com a Fundação Brigitte Bardot e tem o objetivo de esterilizar até 800 animais até julho de 2023.

A associação funciona graças ao trabalho de voluntários, um total de 26, entre expatriados e são-tomenses. Há equipas que recolhem os animais, cedo pela manhã, e que os levam até à sede da associação para serem esterilizados. No mesmo momento, e graças ao apoio da World Veterinary Service, são também desparasitados.

“Voltam para a rua sem carraças, sem pulgas e sem risco de contribuírem ainda mais para esta superpopulação de cães”, segundo a veterinária.

Os que não regressam para as ruas, são adotados ou ficam temporariamente em famílias de acolhimento ou permanecem mesmo nas instalações da AMA, por exemplo, a recuperar de cirurgias.

‘Zé’, 28 anos, é um dos são-tomenses voluntários. Diz que sempre gostou de cães e, nos dias de folga – trabalha como piscineiro num hotel na capital – vai dar uma ajuda na associação, descreve, enquanto distribui festinhas pelos vários cães que o cercam.

Uma das suas tarefas é recolher animais nas ruas, uma missão que não é isenta de riscos: “Alguns são mais meigos, outros mais agitados. Já levei dentadas também. É um trabalho necessário para controlar o crescimento dos animais e das doenças”.

As carraças – ou ‘carrapatos’, na linguagem local – tornaram-se recentemente um “problema muito grave” no país, “importadas” por um cão proveniente do Gabão, segundo Mafalda Sousa.

“As pessoas não conheciam [as carraças], muitas começaram a abandonar os cães (…) e ainda temos muitos animais que acabamos por perder porque estão infestados”, lamenta.

Outro problema reside nos atropelamentos, chegam à associação muitos animais com fraturas, alguns ficam com a mobilidade reduzida para sempre. E depois, “a fome e a sede”, que também afetam os animais.

A falta de meios é uma dificuldade com que os voluntários se confrontam diariamente.

“Precisamos de mão-de-obra veterinária, voluntária, para nos ajudar nas esterilizações, de meios de captura, de meios cirúrgicos, porque temos muitos animais que nos chegam com fraturas e é preciso fazer amputações ou cirurgias delicadas ortopédicas, precisam de tempos de anestesia muito longos, e só temos anestesia fixa”, lamenta Mafalda.

A organização procura agora adquirir uma máquina de anestesia e todos os aparelhos associados e uma máquina de raio-x.

No mesmo espaço, funciona também uma clínica, onde as veterinárias tratam todo o tipo de animais.

Há dois anos, relata Mafalda Sousa, a comunidade local via este trabalho com desconfiança, mas depois de algumas ações de sensibilização, começaram a perceber a importância de cuidar dos animais.

“Os miudinhos começaram a trazer os cãezinhos desde pequeninos para aqui. E agora são eles que nos pedem para ir tratar os bichos, que nos trazem as cabras, às vezes miúdos minúsculos que vêm com cabras maiores do que eles ao colo, e com os leitõezinhos”, comenta Mafalda, que elogia a mudança de atitude dos são-tomenses.

Quer a clínica quer a associação terão de, no espaço de um ano, abandonar as instalações atuais, e por isso estão a promover uma recolha de fundos através de ‘crowdfunding’ para ajudar a financiar um novo espaço.

Às vezes, Mafalda Sousa e os restantes companheiros são apelidados de “malucos dos cães”, uma alcunha que até recebem com orgulho.

“Não me incomoda. Às vezes, penso, mas eu não sou maluca, estou só a tentar ajudá-los. Noutros dias é com muito orgulho e muito amor, sobretudo”, comenta.

Lusa