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São Tomé/Eleições: ADI vence legislativas com maioria

 absoluta e 30 deputados

A Ação Democrática Independente (ADI) venceu, com maioria absoluta de 30 deputados, as eleições legislativas de São Tomé e Príncipe, segundo os resultados definitivos apurados hoje em sede de Tribunal Constitucional.

De acordo com os dados a que a imprensa teve acesso no local, o partido liderado pelo ex-primeiro-ministro Patrice Trovoada teve um total de 36.212 votos, o que corresponde a 30 mandatos, acima dos 28 necessários para ter maioria absoluta na Assembleia Nacional, com um total de 55 lugares.

O Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe/Partido Social Democrata (MLSTP/PSD), do atual primeiro-ministro, Jorge Bom Jesus, que procurava um segundo mandato nestas eleições, recebeu 25.287 votos, equivalentes a 18 deputados.

A terceira força política no parlamento são-tomense, com cinco eleitos, será a coligação Movimento de Cidadãos Independentes – Partido Socialista / Partido de Unidade Nacional (MCIS-PS/PUN, mais conhecido como ‘movimento de Caué', distrito no sul da ilha de São Tomé), após ter tido 4.995 votos.

Com mais votos, mas menos mandatos, foi o resultado do movimento Basta – que absorveu o histórico Partido da Convergência Democrática (PCD) e acolheu ex-membros da ADI. O Basta, que tinha como um dos cabeças de lista o presidente do parlamento, Delfim Neves, avançou pela primeira vez para as urnas e obteve um total de 6.788 votos, elegendo dois deputados.

 

Segundo os dados oficiais divulgados pelo Tribunal Constitucional, a ADI obteve 30 mandatos, com 36.212 votos.

Dinâmica eleitoral

Nas legislativas de há quatro anos, o partido ADI, então no poder (com 33 deputados), venceu as eleições com uma maioria simples de 25 eleitos.

O MLSTP/PSD obteve então 23 mandatos, que somou aos cinco lugares da coligação Partido de Convergência Nacional/União para a Democracia e Desenvolvimento/ Movimento Democrático Força da Mudança (PCD/UDD/MDFM), alcançando a maioria absoluta e impedindo Patrice Trovoada de renovar o mandato à frente do executivo.

Na altura, os dois eleitos por Caué ficaram fora da coligação.

Na segunda-feira passada, e quando ainda eram desconhecidos os resultados provisórios, a proclamar pela Comissão Eleitoral Nacional (CEN), Patrice Trovoada reivindicou vitória por maioria absoluta, afirmando ter 30 deputados, mas o MSLTP/PSD negou rapidamente, reclamando entre 22 a 24 lugares no parlamento.

Perante os resultados ontem conhecidos, UDD e MDFM perderam os lugares na Assembleia Nacional, mas na semana passada, estes dois partidos e o movimento Basta procuraram fazer passar no Tribunal Constitucional uma coligação pós-eleitoral para juntar o total de votos, alegando querer "evitar o desperdício de votos", pretensão que foi hoje rejeitada, com o presidente deste órgão a apontar a sua "manifesta ilegalidade e inconstitucionalidade".

"Papai" Trovoada regressa ao país e ao poder após quatro anos

Patrice Trovoada, 60 anos, regressou a São Tomé e Príncipe uma semana antes das legislativas, após ter saído pouco depois das eleições de outubro de 2018, em que perdeu a maioria absoluta de 33 deputados que tinha suportado o seu executivo desde 2014, o primeiro na história da democracia são-tomense a completar um mandato de quatro anos.

A sua ausência do país durante quatro anos, altamente criticada pelos adversários, não desencorajou os apoiantes. Segundo estimativas de organizações internacionais, entre 10 e 12 mil pessoas foram receber Patrice Trovoada ao aeroporto no dia 18 de setembro, saudando a chegada do "Pai Grande", enquanto cantavam: "Papai chegou, a fome acabou".

Já a ‘nova maioria’, composta por uma coligação pós-eleitoral entre Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe/Partido Social Democrata (MLSTP/PSD) e o bloco PCD/UDD/MDFM, no poder desde 2018, preferiu apontar que durante quatro anos, e quando o país atravessou uma crise por causa da covid-19 e do aumento dos preços, Patrice Trovoada esteve fora e não ajudou o país. O atual primeiro-ministro e candidato a um segundo mandato, Jorge Bom Jesus, apelidou-o de “fugitivo” durante a campanha eleitoral.

"Eu não fugi. Só tirei o meu corpo. Sabem como alguns aqui odeiam Patrice Trovoada. A minha cabeça, o meu coração, a minha alma estão em São Tomé e Príncipe", argumentou Patrice Trovoada, no primeiro comício após a sua chegada.

Ausência

Justificou a sua ausência afirmando ter sido alvo de uma tentativa de homicídio frustrada, em agosto de 2018, e por não ter garantias de segurança no país, depois de dois dos seus ex-ministros, incluindo o atual Presidente da República, Carlos Vila Nova, terem sido visados pela justiça sob ordem direta do Governo de Bom Jesus.

No seu regresso a São Tomé e Príncipe, Patrice Trovoada extremou o apelo ao voto, garantindo que apenas assumiria o poder se tivesse maioria absoluta.

Nasceu em 1962, Libreville, Gabão, enquanto o seu pai, o ex-presidente Miguel Trovoada, estava no exílio na luta pela independência. Converteu-se ao islamismo em 1984, incentivado pelo atual Presidente do Gabão, Ali Bongo, de quem é amigo, e tem sete filhos e quatro netos. Pratica desportos de combate e pilates.

Por ter vivido grande parte da infância e adolescência fora do país, afirma-se desligado da "burguesia elitista" são-tomense, preferindo o contacto com o "povo pequeno", que o convida na sua casa a comer calulu, um prato típico do país. Assume-se como um ‘bon vivant’, apreciador de boa comida e bom vinho.

Patrice Trovoada confessa-se admirador de Nelson Mandela, citando na sua biografia uma frase do líder histórico sul-africano: "Não me importo com o que os outros pensam sobre o que eu faço, mas importo-me muito com o que eu penso sobre o que faço. Isso é caráter".

Lusa